Será o problema do Diabo questão de foro íntimo, que não deve ser levado ao debate, ao estudo, à contestação? Muita gente assim pensa, partindo do argumento de que não sendo o Diabo realidade objetiva palpável, verificável historicamente, mas mera criação da subjetividade mórbida ou infantil, tal discussão seria por demais bizantina num mundo de raciocínios exatos.
Porém, a fascinação de algo que não se pode tocar, e que nos faz partícipes de fenómenos sobrenaturais, não abandonou completamente o homem moderno, que, ainda hoje, acredita no exorcismo com a mesma fé que impulsionava o homem medieval a ir ao feiticeiro da aldeia.
Daí a razão deste ensaio que vale, antes de mais nada, como introdução à Demonologia, assunto vasto com numerosas ramificações, sendo seu objetivo básico reabrir o velho caminho do mundo fantástico mas real, que a imaginação humana povoou de criaturas estranhas dotadas de atributos sobrenaturais; um mundo distinto, mas que, indubitavelmente, forma parte do homem.
Embora não possamos chegar ao conhecimento pleno do ser chamado Diabo, percebemos, pelo menos, a sua face humana, a aparência do ser que nós mesmos criamos. É por isso que, em todo o mundo, onde existe uma religião oficial, a crença no Diabo varia muito, seguindo o credo oficial ou de acordo com a imaginação popular, uma vez que é o tema religioso que mais facilmente pode transformar-se em imaginações lendárias da fantasia das massas.
A verdade é que o Diabo (ou qualquer outro nome dado a ele) não é uma invenção judaico-cristã. Ele está presente na consciência do homem desde que este apareceu na terra. A mitologia e o folclore de todos os povos assinalam a sua presença, e em nossos tempos, ele está cada vez mais na moda. O Diabo é reconhecido como um dos protagonistas da História, um elemento duradouro da cultura.
Donde a importância de seu estudo para se esclarecerem as estruturas mentais de base, como a permeabilidade entre o mundo sensível e o mundo sobrenatural, a identidade entre o corporal e o psíquico.
Mas, existe realmente o Diabo?
Por mais que a ciência cale-se, a filosofia negue e só a religião responda afirmativamente, e que a descrença se possa sentir justificada por várias razões, permanece de pé o horror daquele "talvez seja verdade" que ele exista. Em outras palavras, acreditem ou não no Diabo, resta sempre uma dúvida.
A presente obra constitui precisamente um panorama geral, destinado a permitir o estudo do Diabo, de forma que possamos constatar se se trata de algo real, ainda que com face humana; ou, ao contrário, se se trata de simples imagem para uma ideologia da repressão moral e religiosa do poder constituído.
Talvez o Diabo seja um nada, mas é neste nada que podemos achar o todo, como disse Fausto e Mefistófeles:
"Falas como o primeiro Mistagogo
Que jamais enganou fiéis neófitos;
Mas às vessas. Ao vácuo tu me envias
Para revigorar a mente e o braço;
Fazes de mim o gato que do lume
As castanhas te tire, qual na fábula.
Pois seja assim! Tentar quero a experiência:
No teu Nada, encontrar espero o Todo. "
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