Ch. S. Pierce, num lazer de suas reflexões semióticas, dedicou-se a "quirografar" versos de "O Corvo" (The Raven) de E.A.Poe, produzindo "iluminuras expressionistas" (D. Pignatari, , ou, como me pareceu, ao receber, há anos, das mãos de Max Bense, xerocópias desses "quirogra-mas11 -, uma estranha caligrafia psicodramática, que imprime tremuras "terrorescentes" às letras do poema poeano, dotando-as visualmente de uma congenial palpitação fono-semán-tica. Esse exercício icônico, sensibilíssi-mo, do filósofo americano, balizou uma possibilidade hermenêutica que vejo agora explorada e desenvolvida, com precisão e paixão, neste livro de Monique Balbuena.
A Autora é uma crítica-poeta, cujos poemas, raros e inéditos ainda, atestam, para quem os pôde ler, uma intimidade com a palavra que está na raiz de seus dotes de penetrante analista de textos. Trabalhando naquelas regiões intersemióticas onde o poeta Põe exerceu sua sabedoria das virtualidades tipográficas, Monique Balbuena colaciona, crítica e exegeti-camente, o escritor de "Xizando um Editorial", "William Wilson", "Ligéia" e "A Queda da Casa de Usher", o filósofo de Eureka,com o nosso não menos enigmático e filolétrico Guimarães Rosa, cujo emblema de maior cursivídade é a sigla do infinito enroscada no laço-de-fita do 8 e cujo livro talvez mais minuciosamente tocado pela imaginação gráfica seja Tutaméia (objeto da atenção especial da Autora, por sua singularidade místico-estrutural).
Aos subsídios procedentes da Teoria dos Signos, alia a estudiosa carioca os recursos interpretativo-alegóricos oriundos da Cabala (palavra hebraica de amplo raio semântico, cuja acepção básica é "recepção", mas que atravessa, pervasiva, o mundo cultural judaico, designando desde a altamente sofisticada tradição mística do Zohar.aíé, no ivrít cotidiano - pois "o significado é o uso"- a amável tarefa hospitaleira e hospedeira de "acolhida").
E é nesse pleno sentido de "cabalis-ta-recepcionista" da significância, provida de um "contador Geiger" semiótico, que Monique Balbuena nos desvenda os criptogramas cosmovi-dentes, os glifos místico-visionãrios desses dois altos escritores - o Põe da poesia e o Rosa da prosa, tão diferentes e tão gémeos, pelo menos na gematria radiante dos decifradores de estrelas, usuários da benjaminiana língua adâmica.
Rigor e arnor no exercício da crítica da linguagem e do poema, eis os ingredientes fascinantes deste Põe e Rosa à Luz da Cabala de prazerosa e proveitosa leitura.
Nota Prévia 11
Apresentação 13
Introdução 19
Prolegômenos Teóricos
Historiografia crítica dos autores 33
Põe e seus críticos: 150 anos de conflito
Rosa e a crítica: entre aplausos e incompreensões
Apresentação dos autores 61
Edgar Allan Põe
João Guimarães Rosa
Rosa, Põe, palavras, ou não 87
Rosa
Põe
Ciência e Poesia: o método 97
Quando Deus fala e quando Deus cala: uma abordagem mística 109
"O concreto se pensa com o olho" 137
pROeSiA
POEsia
Conclusão 173
Bibliografia 179
Apêndice 189
Ilustrações
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